CENAS DO MODERNO EM GRISELDA GAMBARO

 

Jane D’arc – Unicentro Newton Paiva/UFMG/

Fundação João Pinheiro

 

 

De acordo com PAZ (1993), a modernidade se inicia com um desprendimento do conceito da eternidade. O mundo, até então limitado, dissipa-se em tempos contínuos, onde ocorrem acontecimentos não mais consecutivamente, e sim, simultaneamente. O que antes era impermeável, imutável concluído com valores fixos, nesta descoberta, agora, é criticado. E é com essa crítica que surgem os conceitos de Idade Moderna: progresso, tecnologia, democracia, liberdade, igualdade... A felicidade não mais se encontra na “vida eterna”, e sim, no futuro. Um futuro dessa mesma vida, mas que nunca chega e que está sempre além. Na modernidade, o “agora” e a “redenção ao novo” são os sustentáculos dessa nova fase. Um “novo” que busca sua autonomia e se nega para se transformar.

Através de seus textos teatrais, Griselda Gambaro, dramaturga Argentina, propõe-nos a “negação” do sujeito mulher como um dos caminhos para a inclusão e transformação do papel desse sujeito no seu espaço de enunciação, Argentina, e por extensão, América Latina. O lugar de enunciação é um lugar geográfico-cultural, com todas as influências imagináveis (cultural, social, política, econômica) de onde produzimos textos escritos ou verbais e que, nós, de acordo com ACHUGAR (1994)

 

hablamos desde un espacio configurado por la utopia, en un intento de diálogo, pero sobre todo desde la precariedad de una situación (...) hablamos desde la periferia latinoamericana, hablamos desde la periferia humanística en que nos ha puesto el neoliberalismo.[1]

 

Sem, contudo, esquecer-se de que dentro da “periferia” existem outras “periferias”. Inclusive o “centro” não é homogêneo, e que dentro dele, encontramos também periféricos nas diferentes categorias de marginalização (etnia, gênero, religião, condição sócio-econômica.

Griselda Gambaro projeta uma “negação” dessa eternidade imutável através de personagens que não representam identidades fixas. Assim, essas personagens se apropriam do discurso masculino para sobreviver à dominação do mundo patriarcal e excludente no qual estão inseridas. Para isso, irão utilizar-se dos recursos que domina, ou seja, o próprio conhecimento do dominante.

 

El hecho de que el conocimiento tenga dueño (masculino) no impide que las mujeres se lo tomen por asalto y cometan las extorsiones de fórmulas que mejor las capacitan para su crítica a la masculinidad del saber.[2]

 

A cena seguinte da obra Puesta en claro dessa dramaturga constitui um exemplo marcante do que estou falando. Clara, a personagem cega, violentada física e psicologicamente, primeiramente aceita o jogo do dominante, representado nessa obra pelo Doctor, um médico decante e seus filhos, Félix e Lucio, para depois lutar por sua independência, que é conseguida através do assassinato dos opressores. Assim, reproduz o discurso enganoso do Doctor, agindo conforme o script proposto.

 

Doctor (amenazador): ¡Cómo llueve, dije! Clarita, ¿sos sorda?

Clara (natural): No, ciega. ¿Por qué?

Doctor: Los chicos están afuera.

Clara: ¡Ah! ¿Tendrán impermeables? (El doctor la besa, contento de su respuesta)

Abuelo: No te preocupés. Macanea. No llueve.

Doctor: Hay una gotera. Vení, Clarita. (Ella, a tientas va hacia el Abuelo, quien orgulloso la toma posesivamente del brazo. El Doctor se la arranca y la empuja hacia la mesa. Le vacía la jarra de agua en la cabeza) ¿Llueve o no?

Clara: ¡Oh, sí! A cántaros.[3]

 

Em seguida, assume o lugar e as palavras dele quando este sai: “Clara (fría): Abuelito, cómo estás viejo. Listo para morirte[4]”. Mas logo, retoma seu papel inicial: “Abuelo: Cuando me cante. ¿Nunca tuviste un abuelo? ¿No sabés ofrecer nada, agasajarlo? Clara: Si me lleva a la cocina, le preparo un café.”[5]

Essas diferenças da personagem Claranos revelam um sujeito que busca “en cada intersticio de discurso la oportunidad de crear una respuesta estratégica a las categorías institucionales de identidad y de representación.”[6]

A presença da mulher nos textos de Griselda Gambaro surge de forma lenta e definitiva. Primeiro, é marcada pela ausência da personagem feminina (Decir sí), depois em forma de boneca (Las Paredes), até afirmar-se como sujeito enunciador e transformador da sociedade (La Malasangre, Antígona Furiosa, Del sol naciente). Existem muitos fios condutores binários nas obras de Griselda Gambaro como as relações poder / submissão; homem / mulher; cultura central / cultura periférica; força / fragilidade, dentre outros. Para quebrar este binômio e desmarginalizar as margens, a dramaturga utiliza como recurso a inversão de papéis homem / mulher, a mudança do sujeito da enunciação, a decomposição da linguagem, a ironia e a crueza das cenas. Em Efectos personales é um homem que busca "a princesa encantada" como solução para seus problemas. Em Es necesario entender un poco, além de falar da dominação cultural ocidental sobre a oriental, mostra-nos a fragilidade do homem e a força da mulher (outra vez a inversão de papéis): "Madre: Querrá arroz. Él manda. ¡Y cómo manda!"[7]Na verdade, quem manda é a mãe, o filho (Hue), “bondoso”, só obedece. A ironia, aí, aparece para quebrar o clímax, a tensão gerada pelo mandonismo.

Em Antígona furiosa, a protagonista é uma mulher que se rebela, desafiando vários cânones autoritários: desobedece a uma ordem social (política), desobedece a uma ordem do pai (patriarcal), desobedece a uma ordem de um homem (gênero), ao ir contra seu pai, o Rei Creonte, que proíbe enterrar o filho Polinices. Por não aceitar tal decisão, é condenada a morte. Antígona prefere a morte à submissão. Renuncia a seus projetos pessoais em nome da liberdade. “Antígona: (...) Con la boca húmeda de mi propia saliva iré a mi muerte. Orgullosamente, Hemón, iré a mi muerte. (...)”[8]

Em La Malasangre, Dolores representa a mulher rebelde que se opõe à repressão exercida pelo pai, fugindo ao imaginário feminino estabelecido pela sociedade autoritária e machista na qual se encontra. Sua arma é, ao mesmo tempo, a palavra: Dolores: (...) Papá es demasiado bondadoso. (...) Una bondad desbordante como un río... (borra la sonrisa) que ahoga. Mamá, te mandaron a buscar tu bordado. Y todavía estás acá. ¡Vaya, perrito!”[9], e o silêncio: “Dolores (con una voz rota e irreconocible): ¡El silencio grita! ¡Yo me callo, pero el silencio grita!”[10]

Em Del sol naciente, Suki é a mulher transformadora. Abandona sua posição de objeto sexual, de bibelô, de "deusa" de um guerreiro, para ficar ao lado de um soldado desertor, de um tísico, ou seja, ao lado da vítima. Ela decide. “Suki (a Oscar): ¿Me llevarás con los otros? (Oscar asiente.) ¿Ahora sí? Prepararé la comida. Los sentaré a mi mesa. Comeré con ellos. Hablaré con ellos. Sabré lo que padecieron.”[11] Del sol naciente está ambientada no Oriente, significando que, independente da cultura em que nos encontremos, os problemas que acometem o ser humano têm as mesmas características. Griselda Gambaro, ao utilizar-se desse recurso, provoca o distanciamento do espectador, a princípio, com a obra, mas que se transforma em identificação e auto-reflexão num momento seguinte.

A postura feminina nas obras dessa dramaturga é variada e oscilante: ausente, quando não interfere no discurso imposto, sofredora, submissa, vítima, exploradora, símbolo sexual, mãe, protetora, amante, desfacetada, política, decidida, todas essas e muitas mais são as mulheres de Griselda Gambaro, às vezes presentes numa mesma personagem,mostrando que a mulher não é uma essência única. É a mulher paciente, que se torna agente; a receptora que se faz enunciadora, a partir do momento em que toma consciência de que também escreve a história. Gambaro sabe que tem um papel importante na sociedade e não foge a ele. Em sua obra dramática, critica o poder, a política, o social, o machismo, a colonização cultural, o desencontro, o isolamento ao qual a velhice está sujeita, etc, mas não se detém na crítica. Constrói, especialmente na últimaetapa, alternativas sociais, cuja iniciativa se dá a partir da mulher.

A partir dessas reflexões, parece-me necessário, para tecer algumas considerações, entrar em uma vertente específica de discussão: a mulher e seu lugar na história.

A História, contada a partir da perspectiva masculina, excluiu a mulher dos escritos oficiais, negando-lhe presença, silenciando sua voz e domesticando-a. Para justificar essa “ausência”, os historiadores do século XVIII buscaram apoio nas Ciências, cujos pesquisadores “comprovaram” a inferioridade da mulher, através da analogia. Estudaram sua estrutura cerebral, o peso de seu cérebro, o formato da mandíbula e descobriram a semelhança entre a mulher e os seres considerados inferiores: “os símios e os negros africanos”. Uma “raça inferior” é incapaz de se manifestar social, política e culturalmente nesse mundo burguês que surgia, por isso “as mulheres estavam excluídas, porque estavam naturalmente – isto é, por sua própria natureza – do universo da razão, reduto privilegiado do sexo masculino.”[12]

Às mulheres, ou às “raças inferiores”, coube-lhes a “afetividade”, a não razão, pois são “impulsivas” e “mais imitadoras que originais e incapazes do raciocínio abstrato e profundo igual ao homem branco”[13]; ao homem branco, “raça superior”, a “racionalidade”. Somente a razão, para os filósofos do século XVIII – os Iluministas – poderia trazer a luz e o conhecimento aos homens, e propunham a reorganização da sociedade, com uma política centrada no homem branco e culto, garantindo-lhe a liberdade. A “razão” era, portanto, o único guia da sabedoria capaz de esclarecer qualquer problema, possibilitando-lhe a compreensão e o domínio da natureza.

A “permissão” para fazer parte do mundo patriarcal “foi concedida” à mulher somente nos tempos modernos, porque as dificuldades econômicas advindas das grandes guerras mundiais assim o exigiram, e dessa forma foram mobilizadas para aceder os lugares de trabalho abandonados pelos homens. Daí a chegar às lutas para o reconhecimento de seu papel na sociedade foi questão de tempo e muito determinismo. Mas, apesar de todas suas conquistas, cabe à mulher o cuidado da casa e a educação dos filhos, reduto onde decide, impõe organização e ordem, enfim, exerce “poder”. Em contraposição, poucas vezes pode deliberar no campo da economia ou política, área reservada até muito recentemente ao homem que, temendo perder sua área de domínio, dificulta a entrada das mulheres nesse território. A função feminina transcende a atividade prática do lar – lavar, passar, cozinhar, costurar... – é seu dever, também, zelar pela harmonia, tranqüilidade do espaço privado, que em nada possa recordar o confronto diário, quase bélico, do espaço público capitalista da economia.

 Atualmente, valoriza-se a multiplicidade, a heterogeneidade, o saber “compartilhado”. Busca-se um sujeito andrógino: “competente”, “decidido”, “objetivo”, “líder”, “sensível” e “adaptável” às mudanças impostas pelo mercado neoliberal – o “inteligente emocionalmente” – para funcionar dentro desse sistema. A ideologia que cerca esse novo sujeito, parece-nos, não está preocupada com os rumos que o ser humano levará ou qual será o resultado desse novo processo, como por exemplo, o destino dos milhares de excluídos que não tiveram acesso a esse “saber”, que os colocaria como bons produtores dentro do sistema. Mas a mulher, conquistando seu espaço fora de casa, reclama, exige direitos e respeito. Um novo discurso, então, vai-se formando. Um discurso que já não propicia o sujeito cartesiano, centrado, mas, um sujeito capaz de “reconhecer”, “respeitar” e “dialogar” com as diferenças.

Apesar das várias conquistas, a mulher continua marginalizada: a latino-americana, além de ser o “outro”, a “frágil”, a “submissa”, a “menos inteligente” que o homem, é do terceiro mundo. Quebrar esse discurso autoritário, esse jogo de poder, que até hoje nos ronda, é tarefa que está apenas começando. "Algunas mujeres han optado por adaptarse a ese discurso central y otras de desmarginalizar las escrituras diferentes y reconstruir un imaginario nuevo".[14]Dentre elas, Griselda Gambaro, cuja obra está centrada na problemática do poder e na possibilidade de transformação que possa surgir dos subalternos, especialmente da mulher.

 

But, why should language, and knowledge about language, be a resource for the powerful alone? Why shouldn’t this ‘weapon’ be appropriated by the other side?[15]

 

Dentro de nossa sociedade patriarcal, o poder, normalmente relacionado à força, está associado ao homem e, por isso, tem sido considerado inerente ao sexo masculino. O homem, dentro do esquema patriarcal, domina a rua, como já dissemos anteriormente. É seu dever prover a casa – espaço feminino – das necessidades básicas para a sobrevivência da família. O papel e a função de cada membro que conforma o casal será decidido de acordo com os padrões assinalados pelas construções culturais genéricasde cada sociedade. Em nossa sociedade moderna, se ao homem cabe o econômico – apesar de que é cada vez maior o número de mulheres que sustentam a casa – a mulher “es la responsable de entregar afecto, de las pequeñas decisiones cotidianas, decide qué hacer de comer, pequeños permisos a los hijos, arreglos secundarios”.[16] A família, ou qualquer outro grupo social, simplesmente reproduz a hierarquia que encontramos no plano macro-estrutural. Tem poder quem é capaz de impor-se através da força física, econômica ou de princípios ideológica e estrategicamente formulados que nos são passados de geração em geração como, por exemplo, as funções femininas e as masculinas, atribuindo-lhes e determinando seus espaços de atuação.

Estabelecendo o papel feminino e o masculino, delimita-se, também, a formação e as atitudes do “ser homem”; a formação e as atitudes do “ser mulher”. Então, parafraseando Simone de Beauvoir, não nascemos mulheres – ou homens -, tornamo-nos. Isso leva-nos ao conceito de que gênero é uma construção sócio-cultural “não apenas pela diferença sexual, e sim através de códigos lingüísticos e representações culturais”[17] e que foge à dicotomia essencialista homem/mulher, masculino/feminino. Por ser assim, possibilita-nos dizer que a mulher não é uma unidade, não é homogênea, não é única e por isso dever-se-á “drew increasing attention to the dangers of generalising about women and to the reality of diversity, difference and conflict within the category ‘women’”[18] e a partir da conscientização dessa diferença das e nas mulheres é que se deve repensar a problemática feminina. Podemos, também, repensá-la, inclusive através de alguns pontos da semelhança, porque no jogo diferença/semelhança existem as possibilidades de unicidade e de ruptura entre as mulheres que encontramos dentro das construções genérico-femininas, sem nos esquecermos que essa “diversidad no es sólo de género, sino también de clase social, de raza y de cultura”[19].

Neste trabalho, temos observado que não é só através do gênero que se exclui ou domina, mas também através da raça, das hierarquias sociais e da linguagem. No diálogo da peça dramática La Malasangre, que transcrevemos em seguida, Griselda Gambaro utiliza-se de palavras semanticamente inofensivas para que o vitimário exerça seu domínio. Além do domínio pela linguagem, encontramos, também, a marca da hierarquia social, aqui representada pelo Padre, detentor do domínio econômico, e por Rafael, um professor desempregado, que foi escolhido depois de ficar horas numa fila com vários professores, que, como ele, estavam sem trabalho. O domínio já surge desde esse momento, pois todos estão debaixo de chuva, aguardando a decisão do Padre, que sem nenhum critério para sua seleção, simplesmente contrata Rafael, um deficiente físico, motivado pelo receio de que sua filha Dolores, cujo destino já está traçado (casar-se com um fazendeiro rico, a imagem e semelhança do Padre), possa se envolver emocional e, sobretudo, sexualmente com o professor.

 

Padre (remeda): ¿Por qué, por qué? Por su linda cara. (Se acerca y le da vueltas alrededor) Y es limpio. (Le pasa el pulgar por la mejilla) Afeitado. (Señala la joroba) ¡Pero esto! ¿Me deja... tocarla? Da suerte. (Ríe) ¡Hombre afortunado!

Rafael (pálido de humillación): Soy un buen profesor.[20]

 

A língua do Padre é uma linguagem que “tiene corte obligatoriamente patriarcal porque la razón civilizatoria trabajó durante siglos para asimilar lo masculino a lo trascendente y a lo universal.”[21]Essa linguagem absoluta e masculina está associada ao “abstracto-general” (abstrato-geral) em contraposição ao “concreto-particular” – feminino -, cuja cultura se baseia em signos que valorizam interesses masculino-hegemônicos, portanto, excluindo a mulher do discurso central. No diálogo transcrito a seguir, também de La malasangre, a Madrenunca sabe o que fazer ou não fazer para evitar discussões e não desagradar o marido, que reage sempre com agressões verbais e físicas, sem nenhum constrangimento e argumento para sua atitude.

 

Madre: Acá está el vino. (Con una sonrisa tímida) Te lo quise traer yo.

Padre: Te lo agradezco. (Una pausa. Secamente) ¿Por qué dos copas? ¿Quién bebe conmigo?

Madre: Pensé...

Padre: Mejor que no pienses. (La madre deja la bandeja sobre la mesa. El padre vuelve a mirar por la ventana, el rostro ácido y malhumorado) Ninguno me gusta. Ninguno que me gusta de todos ésos. No hay uno que valga nada. Creen que van a venir acá y que soy ciego y tonto.

Madre: (se acerca y mira con él): El tercero...

Padre: (fríamente): El tercero, ¿qué?

(...)

Padre: ¡Sólo mi cara tenés que mirar, puta!

Madre: Te miro, ¡y no me insultes!

Padre: (como si hubiera oído mal, se toca la oreja. Mira a su alrededor, divertido): ¿Qué? Yo dicto la ley. Y los halagos. Y los insultos. Dije lo que dije, y lo puedo repetir. (Muy bajo) Puta.[22]

 

As decisões importantes, como a contratação do novo professor, são tomadas pelo Padre,isolando a Madre como um estorvo. A fala é subseqüente ao diálogo transcrito acima.“Padre (la suelta, la besa en la mejilla. Con naturalidad): Gracias, querida. Ahora dejame. Hace frío en el patio. Deben estar congelados. No quiero que esperen más.”[23]

Como pode ser observado, nos textos de Griselda Gambaro, apesar da mulher se tornar enunciadora ou começar a participar da vida social, continua na margem da sociedade moderna que estabelece outras formas de marginalização. Através dessa modernidade, esperava-se eliminar “tanto o subdesenvolvimento como as injustiças sociais”.[24] Porém, a modernidade, além de desafios, traz também outras formas de dominação. A tarefa que nos propõe Griselda Gambaro em seus textos

dramáticos, é a construção de um mundo não mais dividido nem violentado pela divisão em categorias genéricas, sociais, políticas, mas uma sociedade que respeite o cidadão como ser humano com as suas diferenças e com as carências que todos nós temos.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

Textos teóricos:

 

ACHUGAR, Hugo. Fin de siglo. Reflexiones desde la periferia. Posmodernidad en la periferia. Enfoques latinoamericanos de la nueva teoría cultural. Editores: Hermann Herlinghaus e Monika Walter.

CAMERON, Deborah. Feminism & Linguistic Theory. New York: St. Martin’s Press, 1992.

HOLLANDA, Heloísa Buarque de. Tendências e impasses o feminismo          como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, l994.

NIGRO, Kirsten F. Griselda Gambaro vista desde lejos: primeros textos y contextos culturales. Teatro Argentino de los’60 – polémica, continuidad y ruptura –. (comp.) Osvaldo Pellettiere. Buenos Aires: Ediciones Corregidor, 1989.

PAZ, Octavio. A outra voz. Trad. Wladir Dupont. São Paulo: Siciliano, 1993.

QUEIROZ, Vera. Sujeito, subjetividade, gênero. Crítica literária e estrategias de gênero. Niterói: EDUFF, 1997.

ORTIZ, Renato. Advento da modernidade? Posmodernidad en la periferia. Enfoques latinoamericanos de la nueva teoría cultural. Editores: Hermann Herlinghaus e Monika Walter.

RICHARD, Nelly. Masculino/Femenino Prácticas de la diferencia y cultura Democrática. Santiago: Francisco Zegers Editor, 1993.

ROJO, Sara.Teatro latinoamericano de fin de siglo: ¿Un teatro nuevo?Artigo apresentado no Coloquio Internacional de Literatura de Mujeres Latinoamericanas. La Habana, Cuba, fev.1998.

 

Textos dramáticos:

 

Gambaro, Griselda. Teatro l. Buenos Aires: Ed. de las Flores, 1984.

_____.Teatro 2. Buenos Aires: Ed. de las Flores, l987.

_____.Teatro 3. Buenos Aires: Ed. de las Flores, l989.

_____.Teatro 4. Buenos Aires: Ed. de las Flores, l990.

_____.Teatro 5. Buenos Aires: Ed. de las Flores, l99l.

_____.Teatro 6. Buenos Aires: Ed. de las Flores,1996.



[1] ACHUGAR, 1994. p. 236 [falamos a partir de um espaço configurado pela utopia, numa tentativa de diálogo, mas sobretudo a partir de uma situação (...) falamos da periferia latino-americana, falamos da periferia humanística na qual nos pós o neoliberalismo.]

[2] RICHARD, 1989. p. 24. [O fato de que o conhecimento tenha dono (masculino) não impede de que as mulheres o tomem por assalto e cometam extorsões de fórmulas que melhor as capacitem para sua crítica à masculinidade do saber.]

[3] GAMBARO, 1987. p. 143-4. [Doctor: (ameaçador) Como chove, disse! Clarita, você é surda? Clara (natural): Não, cega. Por quê? Doctor: Os meninos estão lá fora. Clara: Ah! Eles têm capa de chuva? (O doctor a beija, contente com sua resposta) Abuelo: Não se preocupe. É um embuste. Não chove. Doctor: Tem uma goteira. Vem, Clarita. (Ela, tateando, vai em direção ao Abuelo que, orgulhoso, a toma possessivamente do braço. O Doctor a arranca e a empurra para a mesa. Esvazia uma jarra de água na sua cabeça) Chove ou não? Clara: Oh, sim! Em abundância.]

[4] GAMBARO, 1987. p. 147. [Clara (fria):Abuelito, como o senhor está velho. Pronto para morrer.]

[5] GAMBARO, 1987. p. 145. [Abuelo: Quando eu tiver vontade. Você nunca teve um avô? Não sabe oferecer nada, agasalhá-lo? Clara: Se me levar até a cozinha, preparo-lhe um café.]

[6] RICHARD, 1989. p. 60. [em cada interstício de discurso a oportunidade de criar una resposta estratégica às categorias institucionais de identidade e representação.]

[7] GAMBARO, 1996. p.61. [Madre: Vai querer arroz. Ele manda. E como manda!] Para manter a intenção do jogo que a autora faz com os nomes das personagens, muitas vezes designadas pela profissão ou hierarquia social, decidi mantê-los, sem tradução.

[8] GAMBARO, 1989. p.217. [Antígona: (...) Com a boca úmida da minha própria saliva irei ao encontro da minha morte. Orgulhosamente, Hemón, irei ao encontro da minha morte.(...)].

[9] GAMBARO, 1984. p.109. [ Dolores (...) : Papai é muito bondoso. (...) Uma bondade que transborda como um rio... (apaga o sorriso) que afoga. Mamãe, mandaram-lhe buscar seu bordado. E ainda está aqui. Vai, cachorrinho!]

[10] GAMBARO, 1984. p.110. [Dolores (com uma voz partida e irreconhecível): O silêncio grita! Eu me calo, mas o silêncio grita!

[11] GAMBARO, 1984. p.135. [Suki (a Oscar): Vai me levar com os outros? (Oscar consente.) Agora vou preparar a comida. Vou sentá-los na minha mesa. Comerei com eles. Falarei com eles. Saberei o que sofreram.]

[12] QUEIROZ, 1997. p.112.

[13] HOLLANDA, 1994. p.74.

[14] ROJO, 1998. s/p. [Algumas mulheres optaram por adaptar-se a esse discurso central, e, outras, por questioná-lo com o objetivo de desmarginalizar os textos diferentes e reconstruir um imaginário novo.]

[15] CAMERON, 1992. p.1. [Mas, por que a linguagem deveria e o conhecimento da linguagem ser um recurso para um poder isolado? Por que ‘esta arma’ não poderia ser apropriada pelo outro lado?]

[16] LARRAÍN H. 1990. p.77. [é a responsável de dar afeto, das pequenas decisões cotidianas, decide que fazer para comer, pequenas permissões aos filhos, consertos secundários.]

[17] LAURETIS, 1994. p.208

[18] CAMERON, 1992. p.12. [chamar, cada vez mais atenção, para o perigo de generalizar-se sobre a mulher, e para a realidade da diversidade, diferença e conflito dentro da categoria ‘mulheres’]

[19] NIGRO, 1989. p.257. [diversidade não é só de gênero, mas também de classe social, de raça e de cultura.]

[20] GAMBARO, 1984. p.63. [Padre (remeda): Por que, por quê? Por sua linda cara. (Aproxima-se e caminha ao seu redor). É limpo. (Passa-lhe o polegar na bochecha). Barbeado. (Mostra a corcunda) Mas isto! Me deixa... tocá-la? Da sorte. (Ri) Homem de sorte! Rafael (pálido de humilhação): Sou um bom professor.

[21] RICHARD, 1989. p.22. [tem corte obrigatoriamente patriarcal porque a razão civilizatória trabalhou durante anos para assimilar o masculino ao transcendente e ao universal.]

[22] GAMBARO, 1984. p.59/60. [Madre: Aqui está o vinho. (Com um sorriso tímido) Eu mesma quis trazê-lo para você. Padre: Eu te agradeço (Uma pausa. Secamente.) Por que duas taças? Quem vai beber comigo? Madre: Pensei... Padre: Melhor que não pense. (A madre deixa a bandeja sobre a mesa. O padre volta a olhar pela janela, o rosto ácido e mal-humorado) Eu não gosto de nenhum. Eu não gosto de nenhum deles. Não tem um que vale alguma coisa. Acham que vão vir aqui e que eu sou cego e idiota. Madre: ( aproxima-se e olha com ele) O terceiro... Padre (friamente): O terceiro, quê? (...) Padre: Só minha cara tem que olhar, puta! Madre: Eu te olho, e não me insulte! Padre (como se tivesse ouvido mal, toca a orelha. Olha a sua volta, divertido): O quê? Eu dito a lei. E os elogios. E os insultos. Disse o que disse, e posso repetir. (Bem baixinho) Puta.]

[23] GAMBARO, 1984. p.61. [Padre (solta-a, beija-a no rosto. Com naturalidade): Obrigada, querida. Agora, deixe-me. Faz frio no quintal. Devem estar congelados. Não quero que esperem mais.]

[24] ORTIZ, 1994. p.188.